Como vimos no primeiro artigo desta série, a cria é a fase da pecuária que compreende a reprodução e o crescimento do bezerro até a desmama. Como qualquer outra atividade econômica, entender os números da operação e os indicadores de desempenho inerentes é primordial para o sucesso.
Na cria, estes indicadores são importantes para entender a situação reprodutiva do rebanho e a saúde do negócio. Nesse artigo, mostramos os principais índices, sua importância e como calculá-los para conseguir estipular metas.
Para facilitar a organização, fizemos a divisão por três tipos de indicadores, os econômicos, os técnicos e os ambientais.
Conteúdo
Indicadores Econômicos na Cria
Receita Total:
É a multiplicação entre o preço de venda dos produtos (bezerros(as), vacas descarte etc.) pela quantidade vendida.
Basicamente:
Receita Total = Preço x Quantidade
Custo Total:
Soma de todos os custos fixos e variáveis que envolvem a produção.
Custo Total / cab:
Aqui, podemos separar em custo do bezerro e custo da matriz:
- Custo da Matriz: O ideal é utilizar o custo total da fazenda no período de um ano. Esse valor, deve ser dividido pela quantidade de bezerros que foram desmamados nestes 12 meses. Pode ser considerado também o intervalo entre partos.
Se considerarmos um custo mensal de RS$ 80,00/matriz, intervalo de partos de 13 meses, o custo por ciclo produtivo das matrizes é R$ 1040,00.
- Custo do Bezerro: De maneira básica, é toda a despesa gerada com recursos e insumos para completar um ciclo de produção. Para o cálculo, deve envolver a reprodução, seja monta natural ou inseminação artificial, gestação, nascimento até a desmama. Este período pode variar, mas leva em torno de 19 meses.
Para chegar no valor do custo do bezerro, precisamos de alguns passos. Primero, calcular o custo da matriz (passo anterior). Após isso, consideramos o custo para produzir este bezerro após seu nascimento (medicação, vacinas, alimentação etc.), digamos que este custo seja de R$ 130,00. Agora, temos que somar este custo pós nascimento com o custo da vaca: 130 + 1040 = R$ 1170,00, assim chegamos no custo de um bezerro no sistema de produção.
Lucro:
Basicamente o lucro do negócio pode ser calculado, subtraindo da receita total, todos os custos (operação, impostos, despesas gerais).
Também é interessante pensar em metas de lucro. Segundo o zootecnista e consultor Antonio Chaker, diretor da consultoria Inttegra, o produtor pode calcular este lucro previsto a partir de três fórmulas, cuja aplicação varia conforme a realidade da fazenda:
- Entregar 3% ao ano sobre o que vale a terra;
- Ganhar pelo menos 10% sobre o valor médio do rebanho. Segundo Chaker, esta fórmula é mais universal das três. O consultor explicou que caso haja discrepância grande entre os 3% do valor da terra e os 10% sobre o valor do rebanho, pode ser indicativo de que a taxa de lotação da fazenda não esteja bem ajustada;
- Lucro em R$/@/ano.
Indicadores Técnicos na Cria
Esses indicadores são mais específicos que os econômicos devido a diversidade de decisões técnicas nos sistemas de produção.
Índice de Fertilidade:
Índice de fertilidade = Nº de fêmeas prenhas / Nº de fêmeas em cobertura
Taxa de prenhez:
A taxa de prenhez é medida pela razão entre o número de fêmeas montadas e/ou inseminadas prenhas pelo número de fêmeas montadas e/ou inseminadas. Para saber se uma matriz está prenha, é recomendado o exame de toque, que deve ser feito por um veterinário qualificado. O número de fêmeas que foram expostas a monta e/ou inseminação pode ser determinado pelo número de fêmeas que foram postas para cria.
A porcentagem desta taxa calcula-se pela seguinte fórmula:
(Nº de fêmeas prenhas / Nº de fêmeas acasaladas e/ou inseminadas) x 100
Taxa de natalidade:
Assim como a taxa de prenhez, essa caracteriza-se pela reprodução do rebanho. Saber o número de bezerros(as) que nasceram, consequentemente mostra o número de animais que morreram. Para obter-se a porcentagem dessa taxa, deve-se realizar a seguinte equação:
(Nº de bezerros(as) nascidos / Nº de fêmeas montadas e/ou inseminadas) x 100
Observação: Resultados abaixo da média para as taxas de prenhez e natalidade são indicadores de que pode haver alguma condição nutricional baixa, doenças reprodutivas, touros e inseminação ineficientes, abortos entre outros pontos problemáticos.
Eficiência da Inseminação artificial de tempo fixo (IATF):
Como seu custo é superior a monta natural, recomenda-se analisar a eficiência da técnica da seguinte maneira:
Nº de prenhezes de IATF confirmadas / Nº fêmeas expostas a técnica
É indicado separar a análise da taxa de prenhez e do peso à desmama de bezerros(as) oriundos dessa técnica do restante do rebanho que foi submetido a monta.
Perdas gestacionais:
Conhecidas também como “perdas pré-parto” e “fundo de maternidade”. Consiste na diferença entre o número de gestações confirmadas pelo número de bezerros(as) que nasceram.
Pode estar ligado a problemas reprodutivos de origem infecciosa ou não.
Taxa de desmama:
O número de bezerros(as) desmamados(as) é o principal indicador de lucratividade do sistema. Esta quantia pode ser entendida pela subtração da taxa de prenhez pela mortalidade no ventre, número de abortos e quantidade de mortes durante a amamentação.
A obtenção dessa porcentagem pode ser realizada da seguinte maneira:
(Nº de bezerros(as) desmamados(as) / Nº de fêmeas montadas e/ou inseminadas) x 100
Peso médio do bezerro(a) à desmama:
O peso que o bezerro(a) atingir pode variar consideravelmente e não ser o mesmo em animais da mesma idade (devido ao manejo utilizado em diferentes lotes, genética do animal e disponibilidade de alimento). Para tanto, é importante avaliar o peso médio pela seguinte equação:
Peso total dos bezerros(as) / total de bezerros(as) desmamados(as)
Produtividade da matriz:
O indicador da produtividade da matriz pode ser realizado tanto para o rebanho quanto para a vaca individualmente, através da seguinte equação:
Kg do bezerro(a) desmamado(a) / Nº total de fêmeas montadas e/ou inseminadas
Indicador Ambiental na Cria
O indicador ambiental de maior relevância na pecuária de corte como um todo, é o balanço emissão de gases de efeito estufa (GEE). Vale ressaltar que a intensificação no sistema produtivo de bovinos de corte reduz a emissão de GEE por unidade de produto produzido por hectare (carne), chamada de pegada de carbono.
Assim, a intensificação sustentável explica a necessidade de aumentar a produção agrícola e pecuária por área, levando em consideração alternativas sustentáveis de produção que atendam plenamente à três pilares da sustentabilidade (planeta, pessoas e lucro).
Outro conjunto de indicadores relevantes para o sistema, são os indicadores de bem-estar animal. Uma das primeiras estratégias para avaliar o bem-estar animal foram as Cinco Liberdades:
- Livre de sede, fome e desnutrição pelo pronto acesso à água fresca e uma dieta para manter a plena saúde e vigor;
- Livre de desconforto, propiciando um ambiente adequado, incluindo abrigo e uma confortável área de descanso;
- Livre de dor, lesões, doenças e prevenção ou diagnóstico rápido e tratamento;
- Liberdade para expressar comportamento normal, fornecendo espaço suficiente, instalações adequadas e companhia de animais da própria espécie;
- Livre de medo e estresse, assegurando condições que evitem o sofrimento mental.
Os indicadores comportamentais são obtidos por registros observacionais e inventários comportamentais. Também podem ser registrados por meio dos testes psicológicos, como os testes de preferência com análise da motivação (esforço que um animal faria para obter um estímulo positivo ou evitar os negativos) e o diagnóstico de anomalias de condutas (etopatias, psicopatias, sociopatias), sendo uma das mais estudadas a conduta estereotipada.
Quer saber mais sobre sistemas de produção e se preparar para a pecuária do futuro? Não fique de fora do 10º Simpósio Nutripura.
Autores
Mariana Colli
Pedro Silvestre de Lima
Referências
https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/97348/000919804.pdf?sequence=1
https://www.ceua.ufv.br/wp-content/uploads/2018/05/ORIENTACAO-TECNICA-N%C2%BA-12.pdf